definição

poesia é a especiaria que ativa as pupilas gustativas da língua

terça-feira, março 29, 2005

o dia da poesia que quase perdi

neste último dia da poesia
14/03, esqueci dele.
só lembrei depois de um aluno
comentar se eu não ia ler nada
durante a aula.
fiquei passado.
como foi que esqueci, justo eu
o único que comemorava.

aí, voltando pra casa
já quase dia seguinte, umas dez pra meia-noite
veio

ilusão de ótica

saí correndo e
só então percebi
era o vento nas folhas
da amendoeira
mimetizando
chuva

segunda-feira, março 28, 2005

utopias poéticas 2

estive lembrando da época em que fazia teologia e a nicarágua estava em processo de revolução.
o ministro da cultura era um poeta - Ernesto Cardenal - que fundou em Solentiname uma comunidade. Ela agregava poetas, artistas, atores, pensadores, todos refletindo sobre a possibilidade da justiça e da paz para todos. Solentiname é um lugar lindo: 26 ilhas num lago. Fossem vinte e oito a gente podia pensar em cada uma como um caracter do alfabeto se ligando a outro e mais outro produzindo outro lugar neste mundo, verso deste mundo.

domingo, março 27, 2005

utopias poéticas

"O soviete de Munique (ou a "República do Conselho") de 1919
apresentava certas características de TAZ, embora - como muitas revoluções
– suas metas declaradas não eram exatamente "temporárias".

Kurt Eisner, o martirizado fundador do soviete, acreditava literalmente que os
poetas e a poesia deveriam formar a base da revolução.
Imagine o que teria sido respirar o ar de uma cidade na qual o ministro da Cultura tivesse
acabado de declarar que as crianças na escola logo estariam memorizando
poemas de Walt Whitman." (TAZ - Hakim Bey)

sábado, março 26, 2005

ações terroristas poéticas

1. coloque bandeirolas com a frase 'o buraco é mais embaixo' nos buracos de sua cidade, a cada semana num bairro.
2. apague ou piche o GA e o M de todas as garagens em que estive escrito GARAGEM. deixe só o RAGE, que é raiva em inglês
3. distribua 'papelotes' com açucar e outros com talco em ônibus e trens, pedindo assinaturas para a lei de liberação das drogas.
4. mande cartas de maldição anônimas para políticos corruptos.
5.distribua pacotinhos com pimenta do reino, curry, páprica, em mesas ocupadas de bares, restaurantes e praças de alimentação; os pacotinhos devem vir com a inscrição 'a poesia é a especiaria que ativa as pupilas gustativas da língua' .
6. piche estrelas do mar secas com cores estranhas e espalhe pela praia. pode colocar poemas dentro.

a beleza é triste

acordou sentindo
algo pontiagudo ferindo
virou e percebeu
dormira sobre a cauda do dragão
nas mãos do menino
sonhando dormindo
o menino acorda algo
sub
em certo ponto do corpo
pontiagudo ferindo

por entre o sonho o sono
o som do suspiro
- estar vivo e bem, saber que vai morrer –

o coração enorme do ET
dentro
aquilo tudo
em movimento browniano
pressão insuportável
a tal da
vida
o que tem dentro
o que pulsa escondido freudianamente
e às vezes
ex
pl

ode

à
alegria

escuro denso e viscoso

"e dizer que deus sempre esteve! quem esteve pouco fui eu – assim como diríamos do petróleo de que a gente
finalmente precisou a ponto de saber como tirá-lo da terra” clarice lispector

um senhor que fazia histórias
infantis
inocente acreditava que podia
dizer impunemente
“o petróleo é nosso”

“é preciso manter o controle
sobre tanto ouro negro” diziam

aqui agora
pós-manchas negras
às vezes
se prestar atenção
você pode ouvir
as vozes
vindo do fundo nas ondas
em Cavaleiros

se prestar atenção
você pode aprender com elas

como não se afogar
nos tempos negros
que virão

afinal por causa da grande nuvem negra cobrindo
manhatã
talibã
significa
aprendiz
meta (ou a luta do beta contra o reflexo no espelho)


a poesia mira o espelho
e encontra o poema

o poema é imagem e diferença

a poesia não reconhece o que vê
a poesia não se enxerga

a poesia atravessa o corpo estilhaça-se

o melhor poema é avesso
à poesia que se olha e julga bela

o melhor espelho é aquele que se deixa atravessar
feito pessoa apaixonado



cacos lascas
e um brilho cegante.
Cabral descobridor


“As palavras de um homem morto
Mudam nas vísceras dos vivos.”
(Auden/Em Memória a W. B. Yeats)

Morre feito poeta metafísico. Com sua bem amada numa oração simples. Uma morte plácida. Mas de dia, com o sol a pino. E fica-se mastigando o grão de pedra da perda, ou a ausência feito fome das facas. Perda do alguém e do algo que ensina o difícil no ofício. Ausência de quem descobriu o novo continente para um quê de conteúdo conciso. E fez engasgar a língua melosa daquilo que, até então, aqui se fazia, e ainda. Na luta com a cegueira, tanta lucidez ofusca: um sol sólido pesa e marca o branco da página, cresta o texto, enxuga de tudo que não é seco. Ensina de novo a lição das coisas, dessa notícia do morto e de sua morte, para cada poeta que vem: usar do plácido só o que for ácido, porque corrói com sua crueza. Descobrir que um poema se constrói, sem plumas nem flores. Descobrir a poesia contra, da fé nas fezes. E, converso, fazê-la.

(9/10/99 – depois da notícia da morte de João Cabral de Melo Neto)

from the beggining

começo aqui e recomeço
como diria HC
que não é hospital das clínicas
vamos à poesia