
o poeta
submerso na palavra
mar
ferido no confronto da palavra
pedra
busca no fundo
palavras maciças e densas como aquelas
palavras com uma medida de silêncio
o silêncio
espesso
feito xisto mas
vermelho vivo

CRASHHHHHHH!
o que vai ficar
depois do fim
é o que eles colocaram dentro
não aquilo que sou
RRRRISST!!!!!!!!!!!!
ironia cruel
daí a raiva
AAAAAAARRRRRHH!!
tenho que deixar minha marca agora
e mesmo isso vem deles não de mim
POW!!!
só o uso que faço do que me deixaram
é meu
TUDDDUUM!!
então eu quebro tudo
CABLAM!!!
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* Segundo a análise sempre percuciente de Fausto Wolff em Alcatéia Solo:“Ninguém vê na jaula metálica do peito um bicho solto ferido.”
ontem encontrei com martinho
e ele me falou sobre deolinda
e a obra que faria: ‘uma ou duas coisas que sei dela’.
martinho tem ‘sola fide’ nas palavras que arranca da vida ou vislumbra por acaso.
‘sola scriptura’ é entretanto o trabalho do poema sobre o corpo: trabalho médico, ético, estético.
martinho quer desconstruir com um deus que seja linda.
depois que descobrimos o quântico é bom
ser diferente do senso-comum
o jeito é tornar-se particula-
rmente simples e complexo não disse completo.
martinho não se perturba mais com a presença do diabo porque deixou de crer em dualismos.
e percebeu que o diabo se perturba muito com essa nossa presença de espírito.
martinho é sobretudo um bluesman: a dor aguda quando a guitarra sola
sola triste porque toda beleza é triste
o paradoxo do paradigma humano. martinho é heterodoxo.
martinho constrói seu castelo forte de sensações e perceptos, o verbo feito carne ou essa presunção que dá vida.
martinho por mais estranho “ces’t moi”.
(poema feito pra martinho santafé)
Quando criança
Contaram a história do que
Tinha vendido o irmão
E o seu nome era igual ao meu
Como pode alguém vender o próprio irmão?
Eu perguntava
Vender melhor que matar
Existe a possibilidade de sobreviver
Por um milagre
Um milagre
Que salva o povo
Assim fomos para o Egito
E agora o Egito está aqui
Não posso aceitar
A terra prometida é o Reino
ele é o rei
Pensando nisso
docemente
o
beijei
*significado de judas

Estação 1
A Ceia
Este é meu corpo
Partido por vocês
Partilhado por vocês
Vocês meu corpo
Partido e juntado
Para o compartir
Em memória de mim
Perfeitos em unidade
Mas não uniformidade
Este é o meu sangue
Que é dado por vocês
Vinho da nova aliança
Vermelho que faz
Ver melhor a verdade
Verdade que habita
Cada corpo como cores
Do arco-íris
Filhos da luz
Suas cores diferentes
São uma em mim
O prisma
O amor
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Estação II
Jardins
Um homem no jardim
De novo como no começo
Um homem pede
Que o sofrimento passe
No outro jardim
Um homem sabia
O que não fazer
Mas fez o que queria
Só o que queria
Agora neste jardim
Um homem sabia
O que fazer
E ele fez o que não queria
Muito mais do que podia
Você aqui
No planeta-jardim
Já pensou nisso?
Você aí
Quem é?
Adão ou Cristo?
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Estação III
Ecce Homo
O suspeito foi preso
Agredido e torturado
O suspeito foi julgado
Um blasfemo um herético
Sem direitos – culpado
O culpado foi considerado
Um problema político
E sentenciado pelo Estado
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Estação IV
Se quiser me seguir
A cruz nas costas
As costas nuas
A carne viva da verdade
As farpas chibatas
A raiva a vaia vil pra vida
O rosto fosco
O olho roxo
O sangue pisado
E ele humilhado
Esse é o caminho
Estação V
O outro Simão
Não sei não
Se eu fosse Simão
Em plena luz do dia
Será que a levaria?
Carregando a cruz
Ao lado de Jesus
A gente vê a luz
Esse sujeito
Um preso político
Um problemático
Não o conheço
Não tenho nada com isso
O homem em silêncio
Diz que tudo isso
Tem a ver comigo
- o servo sofredor
é o messias prometido
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Estação VI
Verônica
Ela já o tinha visto
Ouvido e crido
Ela não podia agora
Desampará-lo
Caído ferido
Cansado sedento
Ela corre ao seu encontro
Engana os guardas
Nas mãos a cuia com água
E uma toalha molhada
Ele bebe
Pousa o rosto no pano
E a olha nos olhos
Agradecido
Depois o rosto do amor
Ali como um retrato
De sangue suor e cuspe
Agnus dei qui tollis
Pecatta mundi
Miserere nobis
....................................................................................
Estação VII
Profecia sobre o povo encolhido
Não chorem por mim
mulheres de Jerusalém
chorem por seu filhos e netos
chorem pela desolação que vai vir
chorem pela dispersão
chorem pela inquisição
pelos campos de concentração
pelos filhos-bomba de Ismael
explodindo Israel
chorem todo dia pelo morticínio
pelo antisemitismo
até que eu venha
e faça
paz
...................................................................................
Estação VIII
Exposto
Nu na cruz
Carne e osso
Herege proscrito rebelde maldito
‘perdoa Pai
eles não sabem...’
Herege proscrito rebelde maldito
e o ladrão
nosso irmão
pede perdão
‘ perdôo e te digo
ainda hoje
você vai estar comigo
no paraíso’
………………………………………
Estação IX
A família de Deus
Em meio à dor
Maria acolhe o novo filho
Em meio à dor
João adota a nova mãe
Somos assim aceitos e adotivos
Na nova família
Amados como o discípulo
Filhos do coração traspassado
Almas espíritos e corpos
transformados
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Estação X
Silêncio e entrega
1.
O sol nos olhos
oculta tua face
a nuvem escura
encobre tua vontade.
Hoje, agora,
Não estás comigo
Não ouves meu clamor
Estou sozinho
Nada faz sentido.
2.
A palavra
túnica inconsútil
cobrindo o real
soldados brincam
um lance de dados
e na cruz o real grita
– está consumado –
no princípio
a palavra é
que inventa o real
no fim
a palavra é
(silêncio)
transfigurada
.........................................................................
Estação XI
Réquiem - O sonho acabou
A cruz vazia
O corpo frio
Dentro do oco da pedra
Todos choram
Eu velo
A vida vazia
O pesadelo
no fim da história
.........................................................................................
Estação XII
Metamorfose
Em meio a escuridão milhares de reflexos
sobre todo o seu corpo feito constelação
um brilho um calor outra e a mesma dimensão
borboleta fora do casulo
E dali vem a realidade
Em verdadeira beleza da vida em liberdade
um brilho um calor outra e a mesma dimensão
o Cristo o Senhor nossa ressurreição
Não há motivo pra saudade
Ele está vivo
Venceu a morte e toda maldade
Este é o segredo
que se vive em comunidade
Novas criaturas iluminando a cidade
Um brilho um calor surge em meio à escuridão
É Cristo o Senhor nossa ressurreição