definição

poesia é a especiaria que ativa as pupilas gustativas da língua

quinta-feira, julho 27, 2006

macaba

a cidade que busca

um possível equilíbrio

entre a serra e o mar

a cidade que se busca

entre profundidade

e altura

acha-se perdida

os homens escavam seu tempo remoto

e dele retiram o leite negro

que alimenta o mundo

leite? gosma, bile negra

um passado pastoso

que pode se bem usado

inflamar o povo

a cidade cujo rio

se encontra com o mar

pode se encontrar

aberta a todos pelo mar aberto

aqui aportam outros

que não se fazem nossos

a cidade aberta

não quer se apenas

pouso e uso

a cidade alerta:

quer ser musa

agora com tudo

que a devora

a cidade quer

uma forma um afeto

não só business não só sexo

a cidade quer-se fruto da palmeira.

aos que vivem nela dela:

a cidade quer ser inteira.

domingo, abril 02, 2006

terças feiras sem cinzas


agora poesia tem lugar
toda semana
para todos

polipoesia


120 anos de bandeira
100 de quintana
uma pequenina homenagem
do dia nacional da poesia
ao dia internacional da poesia

enquanto isso

a poesia acabou
aparecendo na praça das artes
com bandeira e quintana
temperando o café do teatro toda terça
do dia da poesia em diante
com vários deles - poetas
falando e fazendo

segunda-feira, janeiro 23, 2006

diana


a armadilha da seda em voz pêlos pele

hipnotiza


o arco do corpo retesa e pousa

sobre a caça carcaça do desejo

até que
ceda

pausa

saciada volta os olhos à beleza
a busca não cessa
a deusa vive da presa

variações em torno do azul


me virei e vi

era ele

vindo

de um modo que só ele poderia

os movimentos lentos e cadenciados

impossível não se fazer notar

no fim das contas

todos estávamos ali por ele

sabíamos onde estaria e viemos

em busca disso

do que sua presença passa

estar junto

se deixar ficar úmidos como mulheres

quando murmura

coisas desconexas

ele sabe ser

superficial e profundo

perigoso e delicado

o par perfeito

então entendi porque a lágrima é salgada

então entendi o verão

domingo, janeiro 08, 2006

rasgando o verbo


“anger is an energy”
john lydon

ninguém rasga versos já que ninguém os lê e só apetecem socialmente certos versinhos travestidos de poesia numa época em que todo mundo quer ser
bonito rico saudável feliz e tudo precisa ser leve e divertido

masapoesiadiznão

ninguém rasga versos de poetas ruins de poemas péssimos contendo babas sentimentalóides vômitos existenciais e fantasias de mudar o mundo com a receita pronta e bobagenzinhas embaladas de humor contaminados pela fala da publicidade e da auto-ajuda afinal o que se quer é entretenimento e ninguém está interessado em descobrir o que vem a ser poesia

- tanto que se acha até hoje que ela se faz com versos

masapoesiadiznão

ninguém rasga versos só poetas quando sabem o que queriam dizer não está dito

os poetas querem dizer o indizível

esse paradoxo o poema sem verso nem frente

no momento da revelação véu do santo dos santos dilacerado remendado costurado frankenstein

o poema ser de linguagem feio e lindo

o poema preciso de palavras precisas do poeta preciso de poesia

preciso de poesia preciso de poesia

o pote de pandora


“Ai palavras, ai palavras/ que estranha potência a vossa(...)/o mel do amor cristaliza/seu perfume em vossa rosa.” Cecília Meireles

num pote de maioneggs sem rótulo cheio de álcool

a mãe fechou uma rosa champagne do buquê de casamento da filha

o efeito foi imediato

ela desabrochou belíssima para sempre

guardamos por muito tempo

até que numa mudança num ato impensado

de curiosidade infantil

o abri

(a rosa)

cada pétala

(cristalizada)

trincou e partiu.

formando-se uma espécie de vitrilho

quebra-cabeças de 15.000 peças.

pouco

depois nos se/par/amo/s

depois

não mais

e essa imagem belíssima paira

intemporal

sobre nosso amor

nem conservar nem cristalizar

const-

ruir isso.

restam duas perguntas essenciais:

1. tudo seria diferente se o pote tivesse sido mantido fechado?

2. de que cor era a tampa do pote?

terça-feira, dezembro 06, 2005

ofício pífio



Fazer um soneto deve ser fácil

Como roubar o doce da criança

Uma simples questão de conta dáctil

E se for preso pagar a fiança

“É muito feio roubar desse jeito,

É covardia”, dizia a polícia.

Mas arte exige um crime perfeito

E não contavam com minha astúcia

Criança que rouba criança tem

Cem anos de perdão, então eu posso

Fazer e não devo nadica a ninguém

Só a você hipócrita leitor

Que vai ver preferia poesia em vez

Dessa contabilidade sem valor.

sábado, dezembro 03, 2005

a poesia de cor

tempus e modus amantis.
compor&inventar
bricolleurs
das sutilezas
entre o que
existe apenas
e o que
é.
tons tônus tunes
plasticidades matéricas: brilho opaco

trans-lucidez
através o que se vê
não-tudo o bastante
uma escolha entre
escolho que acolhe o que (se) passa

pulsos

da finitude do deslimite
desejo feito cicatriz sobre o real
raso irrisório risível

selo do indizível.

quarta-feira, novembro 30, 2005

Setenta anos da morte de Fernando


“As palavras não fazem o homem compreender, é preciso fazer-se homem para entender as palavras.” Herberto Helder

Pessoa no plural mesmo que singular: Alberto Caeiro, Ricardo Reis (que morava no Brasil), Álvaro de Campos, Bernardo Soares. E tantos outros que vieram com ele, que nele habitavam. Como em nós. Na verdade, não temos a dedicação e atenção necessária para perceber quantos somos. Para identificar cada um em nós, dar-lhe nome, biografia, desejos e propósitos. Pessoa assim fez. Deu nome, data e local de nascimento, mapa astral, personalidade e obra a vários. Nós nos satisfazemos, e por vezes, nem queremos ser a pessoa que somos. É preciso aprender com Fernando a ser pessoa no plural, fazer de cada existência virtual em nós uma possibilidade positiva.

Setenta anos da morte de Fernando e setenta e cinco de Herberto vivo. O grande poeta místico e carnal da língua portuguesa contemporânea. Herberto Helder. Quarenta e cinco anos tem Adília Lopes, a poeta pop, que provoca enorme rebuliço com sua obra e suas aparições na tv. Adília que disse numa entrevista: “Clarissa de Erico Veríssimo, descoberta aos 10 anos (em 1970), foi a porta por onde entrei na literatura. (...) A partir do texto de Erico Veríssimo, da Clarissa, percebi que ia ser escritora e que a literatura era a minha casa.”

Fernando dizia “a língua é minha pátria”. Caetano completou não ter pátria, mas mátria e querer frátria. É bom que a gente faça da nossa língua pátria uma frátria, escolhendo também leituras de criadores portugueses. É preciso conhecer Herberto, Adília e tantos outros. Eles falam a mesma língua nossa. E descobrirmos Portugal já está na hora. Para isso é preciso atravessar o Cabo Saramago e lançar-se ao mar português. Porque, como diz Fernando “o mar com fim será grego ou romano/ o mar sem fim é português”.

Aqui, uma pequena viagem, ou uma garrafa lançada que chega até Cavaleiro, com estas mensagens cifradas:

“Meus olhos resgatam o
que está preso na
página: o branco do
branco e o preto do
preto.”( A leitura/Herberto Helder)

“Os gostos e os desgostos/levam ao poema/como podem levar/ao precipício/o poema fala do precipício/ lá haverá choro/e ranger de dentes/e não haverá Kleenex/nem o Dr. Abílio Loff/o meu querido dentista/o poema fala do precipício/evitado a tempo/o mau poema não mata/(mais vale burro vivo/que sábio morto)” (Adília Lopes)

segunda-feira, novembro 21, 2005

o poema do FestCampos

o poema aí de baixo foi o que se classificou mas não levou.
no concurso havia poemas tão bons quanto ele que também não levaram.

rita it ra ira tira ir art tria





primeiro o sonho sangue e água um útero quente

então o passar o pássaro paz

é só chamar fantasia fantasia e ele vem pra mãe

contra a teleologia uma escatologia

rita feminino de rito

ao fazer um barro esbarro na vida

linhas volumes cores cheiros temperaturas rugosidades lisuras

sete ritas compondo sete rotas no silêncio

o silêncio antecede a palavra

a palavra

cede

ante

o silêncio

não eu ou tu ou nós ou eles

voz

se fazendo

lavapedracorpo

depois o sonho vapores fumaça vermelho*

ver-me

ver melhor


* vermelho é adam no hebraico.

sexta-feira, novembro 18, 2005

mais pesado que o ar


meu filho queria pegar pra ele

um casulo

preso no muro

lá fora

eu disse

“dali vai sair uma borboleta

não pode tirar senão não nasce”.

quando cheguei de noite

o casulo estava lá

dentro de uma das caixinhas plásticas dele.

imaginei saindo dali

uma lagarta com asas

como o pelicano de Baudelaire.

smell trouble

“They could see the trashers coming

And the water shone like diamonds in a dew

It was then when I knew I’ve had enough

Burn my credit card for fuel”(Neil Young-Trashers)

lua cheia

um cheiro de podre

aqui dentro

hamlets e baudelaires

não ajudam

o gato atropelado

lá fora

- exala-se -

preciso isolá-lo

em plástico preto

faz-se assim

com algo como isso

- exila-se -

era um gato preto

azar o dele

memória olfativa

é a mais efetiva

pode-se esquecer tudo

menos o cheiro

da morte

segunda-feira, novembro 07, 2005

submundo


No metrô do Rio, sentado ao meu lado. um senhor idoso. Careca, os óculos quadrados.A expressão.como definí-la? Era Drummond.Fiquei ali, engasgado, com a admiração e as perguntas entaladas.Ele, ali. As pernas cruzadas. As mãos sobre as pernas. Tantos poemas que me fiseram mais vivo saíram daquelas mãos, daquela expressão daquele rosto. Eu, sentado ao lado daquele homem numa transversal do tempo no submundo urbano. Isso foi semana passada. Fuçando nas coisas ontem, no feriado de finados, descobri uma matéria de 28 de março de 1990, da Veja. Falava sobre a Lygia. A mulher que Drummond amou por 36 anos. Não, não era sua esposa.Talvez tenha sido a única matéria na imprensa que dá nome à musa do poema em que Drummond confessa: "na curva perigosa dos cinquenta derrapei neste amor".Drummond, 49.Lygia, 28. Um amor silencioso para nós, que rendeu muito, além da trilogia inédita que a família não deixa publicar - Lira dos trocados e Lirálio I e II. Lio era apelido de Lygia.O homem Drummond, aqui ao lado esquerdo.

domingo, novembro 06, 2005

dark

a sombra sou eu hoje passo sobre as coisas superficialmente torno tudo opaco anti reflexo do que nego no poço sem fundo de ecos trecos sapos flutuantes no caos escuso a luz é ela ela que produz sombra quado espanca as coisas com calcinada clareza a sombra estanca tanta certeza a sombra da chama acesa é talvez outra leveza

face de dois gumes


a vida vira a outra face
outra face a morte
outra face a morte não
a morte não a morte
a morte
revida

traduzir

as palavras suspensas
de poesia
enquanto minha língua
noutraduz

sábado, novembro 05, 2005

tao e qual

no princípio do prazer
criou deus a realidade

a realidade era amorfa e oca
e ruah se movia lânguida
sobre as faces do aprisco

então disse haja luz
e os olhos ônix das ovelhas se abriram
novelos branquíssimos como luas ou nuvem
brilhando na noite das íris das ovelhas

e descubro qual a guerra
entre pensamento e dia e noite
que stevens diz never ends

entre poesia e poema
tinta negra e página branca
palavra e coisa