definição

poesia é a especiaria que ativa as pupilas gustativas da língua

segunda-feira, novembro 14, 2011

SEREI SEREIA

eles nunca responderam
à altura ao seu amor
e você pensa
vai ser sempre assim
seja como for

você fala então
que isso não é vida
você diz então
que vai ficar bandida

mas o tranco é forte
e você é boa gente
por mais que te desgoste
não ser indiferente

ame o amor e o que ele traz
no instante que parece tão fugaz
respire o mar a lua cheia
lembre da sua metade sereia

não guarde mágoa
não esconda a dor
jogue fora o entulho
regue sua flor

fique com o lume
dentro do escuro
sinta o seu perfume
se espalhar em tudo

ame o amor e o que ele traz
no instante que parece tão fugaz
respire o mar a lua cheia
lembre da sua metade sereia

essa é sua força
sua teimosia
junto com ela
aquela alegria
assim não tem como
o tédio fazer morada
ou achar que vida
ficou parada

ame o amor e o que ele traz
no instante que parece tão fugaz
respire o mar a lua cheia
lembre da sua metade sereia

sexta-feira, junho 03, 2011

o axioma de Jesus

seiscentos e treze é igual a dois

os escribas e fariseus não compreendiam. mas os sicários também não.

hoje, os fundamentalistas não compreendem porque querem que A seja igual a A.

nem os neopentecostais que não sabem que menos é mais.

nem os conservadores ou os liberais.

o Reino do avesso

em sua liberdade

sintetiza e retifica

a letra da Lei

que matava os imortais

sábado, maio 21, 2011

ABOMINAÇÃO


quem não ama o irmão
quem olha e só vê o Mal
quem faz discriminação
ABOMINAÇÃOABOMINAÇÃOABOMINAÇÃO
profetas do juizo final
pastores da maioria moral
ABOMINAÇÃOABOMINAÇÃOABOMINAÇÃO
a prosperidade e a unção
são o dente de ouro do Cão
que mastiga a comunhão
ABOMINAÇÃOABOMINAÇÃOABOMINAÇÃO
o pão que o diabo amassa
no vinho da sua desgraça
ABOMINAÇÃOABOMINAÇÃOABOMINAÇÃO

quinta-feira, setembro 09, 2010

tsimtsum

o nada
porque só havia Deus
e seu desejo de criar.
então este não-lugar, esta não-coisa, este não-ser
para que pudesse haver lugar, coisas e seres.


o nada
primeira criatura criada


desde então
niilismo é o buraco-negro por onde começar
em solitude e silêncio
a (d)obra.

segunda-feira, julho 12, 2010

as três mal-amadas

"joão amava tereza que amava raimundo que amava maria que amava joaquim que amava lili que não amava ninguém" (drummond/quadrilha)

tereza

tudo que sinto por ele só um outro pudera me dar
melhor já que ele não sente
ser a corda por onde se sobe para uma possível liberdade
aprender com outra tereza
o êxtase além
desencarnar esta emoção do objeto
ficar com a coisa
meu corpo ardendo e o desejo saciado amando apenas
o amor

essa outra vida é justa

das tripas coração
se você me amasse raimundo
seria a rima-solução
que mudava meu mundo
.............

maria

esse corpo aqui onde sempre quis ao meu lado
está oco
ele funciona me olha e toca nos lugares precisos
me dá do que quero apenas o prazer
um corpo morto de onde brota a vida que me engravida-
ria
o corpo do homem amado que não a mim ama
e vira para o outro lado
o lado escuro da lua brilha pela fresta da janela
(talvez tê-lo assim através
do fio de um filho bastasse)

a vida é tristebela

minha ração de presença e pênis
quase toda semana
para garantir que eu não morra inane
pavloviana assumida
dava algo que ele queria e ele sempre vinha
menos do que gostaria
não dá para exigir mais
tipo flor ou aquela palavra que rima com ela
não não dor
...........

lili

um medo melhor que o da morte o medo abismo-amigo
um medo menos humilhante do que aquela entrega
o medo protetor
nada mais poderia

aprendi a ser calculista com a vida de que gostarei
o futuro eu construo simples e claro
vivo melhor sem as incertezas que aquilo traria
vivo melhor sem ciúme ansiedade ou sensação iminente de
abandono
o sol de outono do medo é frio queima lentamente como tédio ou tristeza
assim a vida é menos boa menos ruim
menos tensa menos intensa

vejo o que aquilo fez com joaquim
nunca queria aquilo
apenas (sed)
uso
e descarto
são recicláveis
(tão feminino, feminista e ecológico o que faço)
e no demais a culpa me desculpa

isso se caso
não vem ao caso
troco essa coisa enorme
aquilo de que me afasto
que meu medo não diz o nome
por outro nome
e um pinto.

o atlas de orfeu

linha da canção o caminho
se faz ao andar
mais baixo

compassos lentos na trilha
do submundo

ardente persistência
v
indo

como todo o amor que teve o seu inferno
subir sem olhar atrás

eurídice está em orfeu
e vice-verso
partes sem completude
um suplemento:

'eu' que une nomes coisas
anti-lírico o

mapa das cavernas do coração.

terça-feira, junho 29, 2010

São Ninguém

“Descalça as sandálias porque aqui é santo”
Obediente a poesia descalça
E pé ante pé adentra
Ela percebe que ninguém sabe que
O mundo aqui é santo
A vida aqui é santa
Ela percebe que
Em lugar algum se vê e vê-se santo
E ela decide convidar
Ninguém a ir para Lugaralgum
Porque ela compreendeu
Que quando Ninguém em Lugaralgum
compreender o santo
Ele virá
Transfigurar
novo céu e nova terra numa nova pessoa.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

encarnações 10 - liverdade


Verde há de se espraiar
Libertar do breu do blue
Verde há de se fazer
Verdade encarnada
Esperança feito gente
Projeto de Deus
Jesus Cristo
Viver do seu jeito

cristos morenos
braços abertos
mesclando festa e luta
na terra de vera cruz
cristos morenos
na paixão da anunciação
do Reino já bem vindo

encarnações 9 - todos filhos


Do cocho de madeira ao madeiro, o filho do carpinteiro
Da gruta de Belém à de Jerusalém, o filho do homem
Do feto ao corpo glorioso, o filho do Todo Poderoso

encarnações 8 - ele é o meu refúgio


No meio da noite, pelo deserto,
Expostos a ladrões e traficantes de escravos.
Só ele, a mulher e o bebê recém nascido.
Fogem da perseguição, da violência,
da morte por decreto.

Oram e caminham sem descanso
Centenas de quilômetros
até chegarem lá.
Lá tem comida, um lugar para ficar
Uma esperança... mas não é o lar.

O deus-menino e sua família de refugiados
Revela pra milhões de outras famílias
Arrancadas de seus lares
Que todo exílio termina um dia, no dia
Em que todas as nações trocarem
seus mísseis por colhedeiras
E suas metralhadoras por enxadas.
Por isso, a luta por justiça e paz
É o pão nosso que cada dia traz.

encarnações 7 - bethlehem


antes o maná
depois os ázimos
então...
na casa do pão
nome da vila de Davi
pão...Davi
pão da vida
se faz comunhão.
Ele derrubou o muro de 8 metros que separa
israelenses de palestinos, judeus de muçulmanos, eu de você
anunciou paz para os que estão longe e para os que estão perto
e religou a todos com Deus.

hoje um menino nos nasceu.

encarnações 6 - álbum de família


Adão da criação
Noé do arco-íris
Abraão da fé
Isaque da promessa
Jacó o malandro
Judá que vendeu o irmão
Davi do coração contrito
Batseba da violência do poder
Salomão filho do perdão
Raabe mulher da vida safa
Josafá da fidelidade
Josias do exílio
José de Maria
Maria da Graça.

encarnações 5 - tudo que tem fôlego louve



rinchos balidos
zurros mugidos
primeiro louvor
a receber
o ungido

encarnações 4 - o príncipe encantado

com os animais
como um animal
nasce num estábulo emprestado
um sem-teto um desabrigado
não um além
mas um aquém
um rei sem
para o nosso bem

encarnações 3 - corpoema


A palavra encarnada
Feita cor do pó
Cór
Vermelho é Adam no princípio
E no fim um profeta disse assim
‘um índio descerá de uma estrela’

A palavra feita povo
A palavra feita pobre
A palavra feita príncipe
A palavra feita paz

Na terra aos homens
A quem ele quer bem.

encarnações 2 - o logos

Só existe o espírito para os espiritualistas
Só existe a matéria para os materialistas
Só existe a razão para os cientistas
Só existe a emoção para os poetas
Só existe o nada para os niilistas
Só existe o tudo para os panteístas

Por isso
O logos se fez corpo
e reconciliou os sós
por nós

encarnações 1 - o verbo de Deus


o verbo de Deus

amar

formou

ar

mar terra

amor-

fa

cores flores seres

e o homem como sumo cimo

mas lúcifer o ser-torto

distorce

a relação a criação

deforma o

amor em

t-mor e

mor-t

então o verbo se fez carne

e amou entre nós

venceu no amor a mor-t

vive e voltará

pois é infinitivo

seu ensino permanece

ele disse

em todas as conjugações

amem amém

segunda-feira, novembro 30, 2009

manual do quereres


um m
incompleto
na palma
m de minha ou de meu

incompletude e o desejo
de afago como quando
era possível
as mãos dadas

dar-se assim
de repente
sem convite

apenas sendo
hu
manos

sexta-feira, outubro 02, 2009

um dia de cão


a cadela carente
pata na porta insistente
abro
se aninha
aos meus pés
eu acarinho
deixo ficar aqui
no quente

só depois percebo
'le chien c'est moi'
humilhantemente

sexta-feira, setembro 11, 2009

hai kais


madrugada
na varanda a rede
vazia balança



teto sem telhas
céu
centelhas



madrugada
um cachorro late
pra lata chutada